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A Trágica Enchente de 1983 em São Mateus do Sul – por Gerson de Souza

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A reportagem do Portal RDX, em parceria com o historiador Gerson César Souza e professora Hilda, trazem detalhes sobre uma das maiores enchentes da história de São Mateus do Sul que se tem relatos. Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer

A reportagem do Portal RDX traz uma série de reportagens especiais, trazendo detalhes sobre as enchentes de 1983, 1992 e 2014, além da cobertura que foi realizada nos últimos dias, mostrando a situação das cheias do Rio Iguaçu neste ano de 2023.

O ano de 1983 foi marcado por uma das maiores enchentes da história de São Mateus do Sul que se tem relatos. Mas também, foi o ano da fundação da primeira rádio de São Mateus do Sul, a Rádio Difusora do Xisto AM 1030 kHz, atual RDX FM 88,7.

Confira abaixo o texto produzido pelo historiador Gerson Souza e fotos do acervo da Casa da Memória Padre Bauer, cedidas pela professora Hilda Jocele Digner Dalcomuni, ao Portal RDX, trazendo detalhes da terrível enchente de 1983.

Por Gerson Souza

A história de São Mateus do Sul começou com uma grande enchente. Em 1891, os primeiros imigrantes poloneses, que recém haviam se estabelecido na pequena colônia, viram suas casas sendo engolidas pelo rio. Por mais de 90 anos essa seria a maior enchente de São Mateus do Sul. Mas o ano de 1983 viria mudar a história. A terrível enchente de julho de 1983 começou, na verdade, no mês de maio. As chuvas registradas na segunda quinzena de maio já tinham sido as piores dos últimos 10 anos, e o Iguaçu, em São Mateus, havia transbordado mais de 100 metros para fora das suas margens (Diário da Tarde, Curitiba, 30/05/83).

A cidade ainda não havia se recuperado desta inundação quando, na última semana de junho, as chuvas torrenciais recomeçaram. Foram 22 dias de chuvas intensas e ininterruptas… O mês de julho de 1983 veria o rio Iguaçu abandonar completamente suas margens, gerando a maior enchente da história sãomateuense. Em apenas uma semana choveu o previsto para um semestre inteiro! Numa cidade com média anual de 1.400 milímetros de chuva, só no mês de julho daquele ano foram 800 milímetros inundando a Terra do Mate… A altura do rio subiu de 2,5 metros para mais de 10 metros. A vazão do rio passou de 500 mil litros por segundo para quase 5 milhões de litros por segundo, aumentando em 10 vezes o fluxo de água. Era mais do que o triplo da vazão de água das Cataratas do Iguaçu, apenas para termos uma comparação.

Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer

Milhares de sãomateuenses perderam tudo o que tinham. Com parte da cidade submersa e ilhada, São Mateus precisou da solidariedade de moradores de vários locais, que abraçaram as famílias do Vale do Iguaçu, diminuindo os efeitos da trágica enchente. Os jornais de Curitiba e de todo o país noticiaram a enchente que causava mortes e prejuízos. O que vemos a seguir são relatos da situação, publicados e eternizados pelos jornais da época:

11/07/83 – Um garoto de três anos chamado Mário Tomacheski morre afogado e é a primeira vítima da enchente no estado. Os jornais de Curitiba anunciam que a situação de inundação tem maior gravidade em São Mateus do Sul e União da Vitória. (Diário da Tarde, Curitiba, 11/07/83).

12/07/83 – São Mateus do Sul tem 40% das casas submersas. Já são dois mil desabrigados. A cidade ficou sem fornecimento de água potável. Uma bomba provisória foi instalada, mas vários bairros seguem sem receber água. A chuva continua e o rio Iguaçu segue subindo. Noventa pontes das áreas rurais foram levadas pelas águas. Houve queda de barreira na BR-476, que está em apenas uma pista, deixando precária a ligação com a Lapa  (Diário da Tarde, Curitiba, 12/07/83). Começa a faltar gêneros alimentícios em São Mateus. Quatro mil voluntários, moradores de São Mateus, se mobilizam para atender as famílias desabrigadas. (Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 12/07/83).

Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer

13/07/83 – O jornal Diário da Tarde, de Curitiba, estampa uma foto de São Mateus, na qual só o que se vê são águas. A legenda diz: “Uma imagem dramática: a cidade de São Mateus tomada pelas águas”. As vítimas da enchente em São Mateus começam a ser alojadas nas casas da Cohapar. Estas casas haviam sido construídas dois anos antes para abrigar trabalhadores da Usina do Xisto da Petrobras. No momento, duzentas casas já foram ocupadas por desabrigados, e planeja-se ocupar todas as 435 casas. Os jornais fazem apelos por doações, e os órgãos de governo ensinam a ferver e filtrar a água disponível. Os ônibus de Curitiba anunciam que não conseguirão levar passageiros para São Mateus, e que irão trafegar até onde conseguirem nas estradas, deixando os passageiros em pontos de bloqueio para que façam baldeação. (Diário da Tarde, Curitiba, 13/07/83).

14 e 15/07/83 – São Mateus do Sul está ilhada. As BR-476 e BR-153 têm cinco pontos de interdição, perdendo a ligação com Lapa e com União da Vitória. As estradas para Três Barras e para São João do Triunfo também estão interditadas (A Tribuna, São Paulo, 15/07/83). Nove pessoas já morreram no estado. Mas além das mortes pela enchente, doenças relacionadas às condições dos flagelados também causam vítimas. Em Bituruna uma criança morreu de tifo, duas estão em estado grave, e 30 pessoas internadas. São Mateus do Sul teve um alento com a chegada de helicópteros com alimentos, remédios e agasalhos. São três helicópteros da FAB realizando o transporte de mantimentos para quatro cidades que estão totalmente isoladas. (Cidade de Santos, Santos/SP, 14/07/83). O governador decreta estado de calamidade pública para São Mateus do Sul. (Diário da Tarde, Curitiba, 14/07/93).

16/07/83 – O sol aparece, mas a previsão é de que a chuva volte e venha o frio na sequência. Já são 14 mortos no estado. São Mateus do Sul segue entre as seis cidades em estado de calamidade pública. A imprensa reforça a solicitação de cobertores, colchões, alimentos e materiais de limpeza. (Diário da Tarde, Curitiba, 16/07/83).

Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer

17/07/83 – Algumas casas comerciais de São Mateus aumentaram os preços de forma abusiva, e foram reprendidas pelas autoridades. Devido à situação crítica, são registrados roubos e saques no município. Dois oficiais e seis soldados são deslocados da Lapa para ajudar na vigilância. Nos alojamentos dos desabrigados também a polícia precisou intervir devido a casos de embriaguez. (Cidade de Santos, Santos/SP, 17/07/83). Em São Mateus um estudante de 23 anos chamado Ubirajara Reis iria perder seu casamento, visto que sua noiva estava do outro lado do Rio Negro. Num ato de coragem, ele atravessou o rio a nado, para poder se casar. Acabou sendo levado para a delegacia de polícia, pois as autoridades haviam orientado para que não fizesse aquela loucura. Prestou depoimento e foi liberado para encontrar a sua noiva.  (Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17/07/83).

18/07/83 – O rio Iguaçu atinge 10,35m, tendo subido 25cm nas últimas 24 horas. As perdas são incalculáveis. Vários estados do Brasil começam a se mobilizar para apoiar os flagelados do Paraná (Diário da Tarde, Curitiba, 18/07/83). O número oficial de mortos no estado segue sendo 14, mas neste dia duas pessoas são encontradas mortas em São Mateus do Sul e outra em São José dos Pinhais, elevando para 17 as fatalidades devido à enchente. (Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 17/07/83).

19/07/83 – O rio Iguaçu atingiu 10,42 metros (este será o ponto mais alto da enchente). A situação em São Mateus está entre as mais críticas do estado. A COPEL trabalha para tentar reestabelecer energia elétrica. Surgem denúncias de desvios e até vendas de produtos que haviam sido doados. (Cidade de Santos, Santos/SP, 19/07/83). Neste dia chega ao município uma guarnição de 25 homens do Corpo de Bombeiros, sob o comando de um coronel do Rio de Janeiro. Também chegam dez caminhões enviados pela cidade de Americana, “madrinha de São Mateus”, trazendo móveis, utensílios domésticos, roupas e alimentos. As famílias instaladas na Cohapar recebem cinquenta fogões doados por São Paulo. No final do dia o rio finalmente baixa nove centímetros… Pessoas que tentam voltar para as casas na área rural encontram grande parte da criação morta… Corpos de bois, cavalos e outros animais boiando, num cenário desolador. (Diário da Tarde, Curitiba, 19/07/83)

Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer

20/07/83 – Após três dias sem chuvas, agora São Mateus do Sul precisa de pás, enxadas, picaretas e material de limpeza. O rio segue baixando (Diário da Tarde, Curitiba, 20/07/83)

21/07/83 – O Iguaçu está perto dos 10m, que é a altura da máxima da régua que existe em São Mateus. A régua ainda está submersa, mas a redução de mais 8 centímetros nas últimas 24 horas foi comemorada pela população. No estado são 60 mil desabrigados e 18 mortos. O fornecimento de energia elétrica para São Mateus foi reestabelecido. A cidade de Cubatão cria 12 pontos de arrecadação e informa à população que adotou a cidade de São Mateus do Sul, “com 30 mil habitantes, sendo 18 mil na área rural”, solicitando que seus moradores façam doações de roupas, remédios, alimentos e materiais de limpeza para a cidade paranaense (A Tribuna, São Paulo, e Cidade de Santos, Santos, 21/07/83). Firmino de Paula e Silva, assessor do prefeito Lourival Mayer, avalia que os flagelados estão sendo bem atendidos, graças ao bom volume de donativos que chegam de várias partes do Brasil. Os desabrigados que receberam casas no Cohapar reclamam de falta de fogões, colchões, talheres e pratos, mas estão felizes por estarem em casas novas agora. São Mateus comunica que o Cohapar passará a se chamar: “Americana”, em homenagem à cidade paulista que enviou dez caminhões de donativos para os desabrigados. (Diário da Tarde, Curitiba, 21/07/83)

22/07/83 – Cubatão envia a primeira remessa de doações para São Mateus do Sul. São “mais de três mil quilos de alimentos, colchões, roupas de cama e mesa, brinquedos, material de limpeza e de construção          “. (Cidade de Santos, Santos, 22/07/83). O rio Iguaçu baixa mais 29cm. O governo estima de seis meses a um ano o tempo para recuperar todas as estradas e pontes. A tráfego na BR-476 foi retomado, mas é precário, pois há afundamento de pista em alguns locais. (Diário da Tarde, Curitiba, 22/07/83). O Ministro dos Transportes anuncia um empréstimo de 220 milhões de dólares junto ao Banco Mundial para recuperar a BR-116 e também a BR-153, incluindo a ligação de São Mateus do Sul com União da Vitória, destruída pelas chuvas. (A Tribuna, São Paulo, 22/07/83)

Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer

23/07/83 – A cidade de Cubatão envia para São Mateus do Sul a segunda remessa para ajudar os desabrigados e apoiar o processo de reconstrução. Um caminhão com oito toneladas de materiais (leite, remédios, material de limpeza, camas, cobertores, utensílios domésticos e materiais de construção) partiu ontem (22/07) de Cubatão. O motorista do prefeito e um mecânico conduzem o caminhão, que tem ao lado a faixa “Vamos ajudar nossos irmãos do sul!”. O prefeito Lourival Mayer aguarda ansiosamente a chegada da ajuda (A Tribuna, São Paulo, 23/07/83)

24/07/83 – É domingo, e o caminhão vindo de Cubatão chega à cidade com 7.736 quilos de materiais para ajudar as vítimas da enchente em São Mateus. (A Tribuna, São Paulo, 26/07/83)

26/07/83 – A maioria das ruas da cidade ainda tem cerca de 2 metros de altura de água inundando as casas. Júlio Skalski, chefe do gabinete do prefeito, escreve carta de agradecimento à cidade de Cubatão. Junto à carta envia fotos da cidade coberta pelas águas. Segundo o jornal paulista, nas fotos são vistos os chalés típicos, com água na altura das janelas. Nos trechos publicados da carta de Júlio Skalski podemos ler: “Momentos surgem na existência de uma comunidade em que, de um instante para o outro, somente a dor e o desespero são a constante em seu viver. Este tem sido o dia-a-dia da nossa comunidade, desde o instante em que as águas tomaram parte de nossa cidade e da zona rural, numa enchente nunca vista nesta região, dando a impressão a todo momento que jamais poderíamos sorrir e transmitir a nossos filhos a felicidade desejada. (…) As doações de pessoas desconhecidas, porém irmanadas no apoio, não serão esquecidas pelos moradores de São Mateus do Sul. Estes irmãos que nos apoiaram tornaram-se, desde já, parte integrante das nossas famílias!”  (A Tribuna, São Paulo, 26/07/83)

Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer

29/07/83 – As águas seguem baixando, mas o Iguaçu ainda está com 9,10m, (6,4m acima do normal). Dos 41 municípios atingidos no estado, 32 estão em estado de emergência e 6 em estado de calamidade pública. São Mateus segue sendo um dos municípios em estado de calamidade (A Tribuna, São Paulo, 29/07/83) e conta com 5.752 desabrigados (Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 29/07/83).

02/08/83 – O rio Iguaçu baixou para 8,10m. Chuvas fracas voltam a cair na região, mas alguns moradores já começam a voltar para as casas. A Prefeitura de São Mateus faz um balanço da tragédia: São 8.230 pessoas atingidas, sendo que 3.600 seguem necessitando receber alimentação. Quanto às casas, 91 foram totalmente destruídas e 608 foram parcialmente destruídas. São 1.600 quilômetros de estradas parcialmente destruídas, 21 pontes destruídas e 23 ruas da cidade danificadas. Na área do ensino foram 14 escolas atingidas, sendo duas totalmente destruídas e 12 semidestruídas. (Diário da Tarde, Curitiba, 02/08/83)

03/08/83 – O rio Iguaçu baixou para 7,98m. São Mateus ainda tem cinco mil desabrigados. O Instituto de Meteorologia anuncia a chegada do frio com geada, e a defesa civil solicita reforço na doação de agasalhos e cobertores. (Diário da Tarde, Curitiba, 03/08/83)

Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer

04/08/83 – O rio Iguaçu baixou para 7,64m. Estima-se que em 10 dias a situação possa se normalizar. O frio que chega à região parece espantar a chuva, mas causa preocupação, pela situação dos flagelados. Termômetros marcam temperaturas próximas a zero e a geada deixa branca a vegetação, contrastando com a lama marrom. População realizando limpeza de casas e ruas. Materiais para a reconstrução da cidade são solicitados. Empréstimos a juros baixos são liberados para financiar as obras (A Luta, Rio de Janeiro e Diário da Tarde, Curitiba, 04/08/83)

30/08/83 – Cubatão envia carreta com vinte e cinco toneladas de cimento para ajudar na reconstrução da cidade de São Mateus. Junto do material de construção, o Lyons Clube de Cubatão arrecadou e enviou 42 caixas de leite longa vida e materiais de limpeza. (A Tribuna, São Paulo, 30/08/83)

Após o mês de setembro, a vida dos moradores de São Mateus também começou a voltar ao seu curso normal, assim como o Iguaçu, que retornava para suas margens. Mas era impossível seguir em frente como se nada houvesse acontecido. Três meses após a enchente, boa parte dos moradores ainda não tinha documentos básicos, como certidões de nascimento e casamento, pois tudo havia sido levado pelas águas. Foi preciso organizar um mutirão para emissão desses papéis (Diário da Tarde, Curitiba, 07/10/83). Um ano após a enchente ainda havia estradas e pontes que necessitavam recuperação.

Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer

Durante muitos anos foi possível ver a marca da água no alto das casas e galpões, lembrando a todos daquele ano em que o Iguaçu resolveu atacar a cidade, talvez cumprindo uma previsão do antigo profeta João Maria, como muitos afirmavam… O certo é que o lugar em que a enchente de 83 deixou mais marcas não foi nas casas, nem nas estradas, nem nas fotos guardadas pelas famílias e pela Casa da Memória… O lugar em que a enchente ficou mais presente foi na lembrança de cada morador de São Mateus. Quem viveu aquele momento, jamais esquecerá daqueles dias. E mesmo quem não viveu, quem chegou à cidade após aquela década, certamente já ouviu narrarem a história da grande enchente de 83, a história que será contada e recontada por várias gerações… Que ela sirva de alerta para que nós, moradores da Rainha Bela do Iguaçu, saibamos cuidar do nosso rio e da nossa natureza.

Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer
Foto: Acervo/Casa da Memória Padre Bauer
Foto: Carlinhos Wisniewski
Foto: Carlinhos Wisniewski
Foto: Carlinhos Wisniewski
Foto: Carlinhos Wisniewski
Foto: Carlinhos Wisniewski
Fotos cedidas por Geraldo Rosnoski.
Fotos cedidas por Geraldo Rosnoski.
Fotos cedidas por Geraldo Rosnoski.
Fotos cedidas por Geraldo Rosnoski.
Fotos cedidas por Geraldo Rosnoski.
Fotos cedidas por Geraldo Rosnoski.

Abaixo, você confere uma carta escrita por Júlio Skalski, com um depoimento sobre a situação da enchente de 1983 em São Mateus do Sul.

Vivi muito aquilo. Lembro como se fosse hoje. Tudo desandou na noite de 9 de julho, um sábado. As chuvas já vinham de dias. Fato comum, sem que despertasse uma visão crítica. Nessa época eu trabalhava na SIX, na secretaria,  como entregador de correspondência – usava uma bicicleta cinza e percorria toda a área, inclusive até a antiga oficina da mina que ficava onde hoje é o parque industrial de São Mateus. No episódio da enchente houve muita colaboração da SIX, cedendo equipamentos e pessoal para remover as pessoas e inclusive preparar a rua Desembargador Joaquim Ferreira Guimarães. Ali ainda era um vago caminho em meio à uma grande área descampada. Na urgência,  eles aterraram com calcário da mina e uma nova rua nasceu, como única alternativa para chegar na SIX e na direção do Turvo, pois de lá também não se passava.  Os acessos para a SIX estavam comprometidos, inclusive foi liberada a barragem com rua para o trânsito de veículos, inclusive ônibus. O Paulo Takeuti, desenhista da SIX, plotava em um mapa o avanço das águas. (No final de tudo o “Xixo” da HR Pneus, pintou nos pilares da ponte do rio Iguaçu uma linha registrando o nível máximo atingido pelas águas).  Lembro também, da intensa participação da força aérea, com os helicópteros Aerospatiale PUMA e Bell UH-1H, oriundos do Rio de Janeiro e de uma base em Santos, SP, respectivamente. Os locais de pouso localizavam-se no pátio do colégio São Mateus; na esquina em frente ao atual corpo de bombeiros e na esquina entre as ruas Barão do Rio Branco e Paulino Vaz da Silva. Era intenso o movimento. Como gosto muito dessas coisas de aviação, para mim aquilo era um frenesi; não via hora de sair do trabalho e ir correndo até um desses pontos de pouso. Nem almoçava. Tempos depois, recebi uma correspondência com uma “bolacha” (aqueles distintivos bordados que o pessoal usa nos uniformes), do setor de relações públicas da base aérea de Santos. Por um breve período, não havia ligações terrestres disponíveis e a cidade ficou isolada do mundo; apenas os helicópteros como transporte urgente. Trouxeram até um barco enorme de Paranaguá, para reestabelecer a ligação entre São Mateus e a região de Fluviópolis. Para os lados de União da Vitória reinava o caos. Lá foi muito pior.

Sobre a participação de meu pai. Na época ele trabalhava com o prefeito Lourival Mayer na prefeitura; eram muito amigos desde longa data. Meu pai era o chefe de Gabinete e coube a ele a coordenação dos contatos institucionais, juntamente com a Defesa Civil (ninguém sabia como isso tudo funcionava); pela SIX, se não me engano, havia sido destacado o Osvaldo Jasinski. Outros também participaram, como os gerentes dos Banco do Brasil, CEF e Banestado. Além da EMATER, DER, Igreja, enfim não houve quem não estivesse envolvido. Era época de férias escolares e as escolas viram abrigo.

Linhas telefônicas e telegráficas comprometidas, o recurso mais valioso era o TELEX; havia um na SIX e outro no Banco do Brasil. Foi o meio de comunicação fundamental no momento, para o “exterior”. Localmente, não dá para esquecer da participação da RDX, com poucos meses de atividade na cidade, transmitindo orientações para o pessoal isolado no interior.

E no meio desse pandemônio surgiram ofertas  de ajuda humanitária das cidades de Cubatão e posteriormente Americana, principalmente alimentos, roupas e colchões (a vila Americana deve seu nome à cidade de Americana. Até então praticamente desocupada e abandonada – originalmente construída para abrigar o pessoal que viria para Usina Industrial de Xisto – aquele projeto das 20 retortas –  , a vila Americana foi o destino de muitas famílias, bem como a vila Bom Jesus). Bom, você deve ter levantado tudo isso e muito mais.

Fiquei feliz da citação do meu pai e se for procurar lá em casa, posso encontrar mais algum material sobre esse triste – porém cíclico – episódio que assolou a região. (em nossa História, como você sabe muito melhor, os imigrantes foram recebidos por uma enchente).

Apesar da nostalgia – as histórias contadas não conseguem reviver na intensidade o calor do sofrimento que foram aqueles dias – , relembrar é sempre fundamental para a identidade. Mas neste caso, Gerson, muito mais importante, deve servir como alerta, para que “nunca deixar de lembrar” de que tudo isso pode se repetir. E quem dá importância para História, sabe que isso é real e recorrente; apenas questão de tempo. O cenário atual é bem diferente de 1983, muitas das áreas que foram alagadas voltaram a ser reocupadas e outras até então, tidas como áreas de risco e que deveriam ter sido mantidas desocupadas e preservadas com áreas pulmões, como, por exemplo, o parque Barigui, em Curitiba, hoje estão intensamente habitadas e urbanizadas. Me impressiona, que, apesar do conhecimento técnico e das evidências históricas, tudo parece que somente aconteceu “Naqueles Tempos”. Por isso, a tua colaboração com historiador e, é muito importante.

Edinei Cruz
Edinei Cruz
Repórter e Locutor da RDX FMInstagram: @edineicruzsms

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